Conselheiro Lafaiete, 06 de junho de 2026
Querida filha,
Escrevo esta carta com o coração transbordando de um amor que nem eu mesma sabia que cabia em mim, mas também com a honestidade de quem viveu cada dia da sua espera como um ato de coragem. Quero que você saiba, no futuro, como foi a jornada para trazer você ao mundo, com todas as nossas dores, nossos silêncios e nossas vitórias.
Quando descobri que você estava a caminho, a alegria veio acompanhada de um sopro de medo que me paralisou por alguns instantes. Viver com a epilepsia já é, por si só, um desafio diário de equilíbrio. É uma vigilância constante sobre o próprio corpo, sobre o sono, sobre o cansaço. Mas carregar você transformou tudo isso em uma responsabilidade gigante. O meu maior medo nunca foi o que a epilepsia causava em mim, mas sim o medo de que as minhas crises ou as medicações que me mantêm firme pudessem, de alguma forma, tocar você.
Cada ultrassom, cada batimento do seu coração que eu ouvia, era um alívio que me fazia chorar escondida no peito do seu pai. Só eu sei as noites em que balancei entre a exaustão e o medo de dormir e perder o controle. A sociedade, filha, muitas vezes olha para a epilepsia com os olhos do preconceito, da ignorância ou de uma pena que a gente não precisa. As pessoas julgam. Julgam a medicação que a mãe precisa tomar, olham com desconfiança para a nossa capacidade de cuidar, sussurram dúvidas como se a nossa condição nos fizesse menos capazes de exercer o amor e a proteção.
O mundo adora romantizar a gestação, pintar um quadro perfeito de comercial de TV. Mas a realidade de uma mãe que enfrenta uma condição crônica é feita de escolhas difíceis, de consultas médicas rigorosas e de uma força que a gente precisa arrancar do fundo da alma todos os dias. Eu tive que ser forte por nós duas, engolindo os meus próprios receios para que você só recebesse o meu aconchego.
Mas quer saber de uma coisa? Toda vez que você mexia na minha barriga, era como se o universo estivesse me dizendo que nós duas éramos maiores do que qualquer diagnóstico. A sua vida em mim foi a prova de que o meu corpo, com todas as suas falhas e tempestades elétricas, ainda era um solo sagrado, perfeito e forte o suficiente para gerar o milagre mais lindo da minha vida.
Você venceu comigo cada dia daqueles nove meses. Nós vencemos os olhares tortos da sociedade, as estatísticas e as nossas próprias dúvidas. Olhar para você hoje é ter a certeza de que nenhuma dor foi em vão. Você é o meu maior e mais bonito manifesto de superação.
Com todo o amor que existe em mim,
Tenho 38 anos, mãe uma menina de 06 anos.
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