Rio que deságua no mar

Conselheiro Lafaiete, 19 de maio de 2026

Mãe,

Pediram-me para falar de amor; pediram-me para falar sobre você. A verdade é que os sentimentos se confundem. Como um rio que deságua no mar, minha dor deságua em você. A dor de sentir que eu não era querida, a dor da sua negligência, a dor, dor…

​Mas eu a amo intensamente, e não se pode dizer que eu não tenha cumprido o meu papel de filha. Eu fiz mais até do que qualquer criança poderia suportar, e ainda assim você não me enxergava. Você não viu como eu chorei quando o meu primeiro namorado morreu. Eu tinha só 12 anos e você não me via em minha dor. Você nunca me levou ao ginecologista, você nunca, nunca…

De tudo que me ensinou, eu carrego tudo. Toda vez que leio um  livro eu me lembro de você. Sempre que como um prato com bastante variedades de comidas, eu me lembro de você. Quando estou bonita, é em você que eu penso.

Mãe, será que seu mar um dia vai aguentar todo o meu rio de dor? ou eu vou alagar tudo ao meu redor, destruindo toda manifestação do que é belo? 

Mãe, só preciso que você me enxergue.

Sou recuperanda da APAC


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