O coração fala

Ponte Nova, 09 de outubro de 2024

Olá,

Eu tive uma gestação muito complicada. Eu tive que ficar de repouso quase a gestação toda, devido a um deslocamento de placenta e frequentes sangramentos. Então um dia, na minha casa em João Monlevade, eu senti muito asia. Minha mãe estava em casa na época e ela dizia que asia era normal, devido à quantidade de cabelo que a criança tinha. Porém, eu sentia dentro do meu coração que aquela asia, em específico, não era normal, pois estava muito forte.

Então eu liguei para a clínica no hospital onde eu fazia o ultrassom todo mês. Como meu marido na época estava desempregado, eu pedi à secretária para aceitar um cheque pré-datado, pois eu precisava fazer um ultrassom 3D, para ver se a minha filha era realmente muito cabeluda. E assim, foi.

Quando eu fui para a clínica fazer o ultrassom, eu já voltei para casa em observação. Pois o médico detectou que havia alguma coisa diferente com a minha filha. Ele me deixou de jejum e pediu que eu fizesse um novo ultrassom no dia seguinte. Quando cheguei lá, ele viu que não estava passando fluxo no cordão umbilical, confirmando que havia algo mesmo, mas não contou para mim que era uma criança com deficiência. Ele só me encaminhou direto para Belo Horizonte. 

Quando eu cheguei em Belo Horizonte, foi um novo desafio. O plantonista viu a documentação toda e falou que não era necessário me internar, pois ele não identificou nada preocupante e para ele estava tudo certo com a gestação. E de novo, no fundo do meu coração eu sentia que havia algo. Então eu chorei e insisti com ele para me deixar ficar. Então ele concordou, dizendo que já era tarde e que eu era do interior. Eu fiquei dois dias no Sofia Feldman, a equipe médica investigando minha gestação e eu com a certeza de que algo estava errado. 

Foi então no momento que eu conversei com a minha filha. Eu falei com ela, minha filha, me ajuda a resolver essa situação, você precisa nascer, eu sei que você precisa nascer. Eu te dou um presente. Lembrando agora percebo que ainda não cumpri com minha parcela do combinado. E assim foi aquela conexão maravilhosa com ela e com Deus. A enfermeira veio aferir a minha pressão e deu 18. Então eu fui direto para a outra sala de ultrassom e eles começaram a levar a sério e realmente investigar o nosso caso e o que estava acontecendo. E aí, confirmaram que realmente não tinha fluxo no cordão umbilical, há quase dois dias. Minha filha estava entrando em sofrimento fetal, e eu não ia tê-la. Ela não ia nascer se Deus não tivesse falado comigo e insistido neste assunto. 

Ai, beleza, nasceu. Acho que foi meia-noite e vinte. Ela foi para o quarto. Eu fui para o quarto sozinha e ela foi para a UTI. Então eu pedi para a minha mãe ir para a UIT atrás dela. Não sei bem o que aconteceu, mas a minha mãe não conseguiu ir, meu marido não estava comigo neste momento e minha mãe acabou indo para o quarto comigo. 

Quando foi sete horas da manhã, na primeira hora, assim que a anestesia passou, que eu consegui sentir minhas pernas, eu fui atrás dela. Eu toda costurada, rodei o hospital inteiro até achá-la. Quando a encontrei, continuei sem entender nada. Isso foi entre oito e nove horas da manhã e eu só consegui vê-la. Neste meio tempo, meu marido já estava vindo de João Monlevade para Belo Horizonte, minhas irmãs, meu sogro, minha sogra, todo mundo indo para a porta do hospital. E aí me informaram que 11 horas era a hora da notícia. Então neste horário eu fui para a porta do berçário, fui caladinha e sozinha. Foi aí que tive a notícia que minha filha tinha Síndrome de Down. 

Hoje a gente ainda sorri disso, né, pois quando a médica me disse que minha filha tinha forte característica de Síndrome de Down. Eu perguntei para ela:

– Como você sabe disso? 

Então ela disse que era devido aos olhos amendoados, puxados, a prega palmar e um problema no coração. E ela foi citando várias características para mim e como aquele linguajar era completamente desconhecido, eu não sabia o que ela estava falando e ficou no meu pensamento somente os olhos puxando. Então eu olhei nos olhos da médica e disse:

– Olhos puxados por olhos puxados você também tem, então como você está falando que a minha filha tem Síndrome de Down? 

Aí, ele me disse que era asiática e por isso os olhos dela eram puxados, o que não era o caso da minha filha. 

Então eu desci. Desci sem chão e fui para o meu quartinho de novo e lá estava minha mãe e minha irmã. Quando dei essa notícia para elas, em choque, minha irmã falou assim comigo:

– Você preferia que ela não tivesse nascido? 

Foi aí que minha ficha caiu e eu acordei para a vida, que eu vi que aquilo ali não era tão grave quanto eu estava imaginando. 

Daí, ela já foi lá fora e conversou com o meu marido, ele já entrou e quando ele entrou, me disse:

– Não tem problema, nós vamos resolver e cuidar dela, do jeito que for, ela é nossa filha. 

Tenho 43 anos, e sou mãe atípica de uma criança de 6 anos.


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