Conselheiro Lafaiete, 25 de fevereiro de 2022.
Querida mãe,
Espero que esteja bem. Hoje resolvi compartilhar com você algo que mexeu muito comigo e me fez refletir demais. Questões acerca da expressão individual, principalmente para nós, mulheres.
A minha filha começou uma atividade nova, uma aula de dança. Aula nova, novo ambiente, novas pessoas, é tudo muito bom, mas por outro lado, vem sempre aquele receio de ser ou não aceita, não é mesmo? Ainda mais, na chegada da adolescência, quando essa necessidade já tão natural e desejada fica ainda mais exaltada.
E nesta experiência, estavamos lá, eu e ela buscando o nosso espaço nesse novo ambiente, meio que ainda pisando em ovos, nós duas. Eu fico lá assistindo a aula, as vezes lendo, aguardando. Mas na semana passada, aconteceu algo desafiador. As atividades propostas estavam bastante complicadas e ela era a única aluna nova. Os demais, além de terem mais idade, já tinham muito tempo de experiência.
E ela se esforçou demais para acompanhar. A cada intervalo que o professor dava, ela vinha para o meu lado e me abraçava. Isso aconteceu umas duas ou três vezes. Quando a aula acabou, ela estava com os olhinhos cheinhos de lágrimas e se segurando, quando um deles perguntou?
– Está tudo bem? Hoje foi mais difícil, mas você vai conseguir, está só começando.
Ela juntou todas as forças que tinha e disse:
– É que estou cansada!
Mas foi sair do ambiente e ela se sentir segura comigo e ela desabou. Chorou, chorou dizendo que não estava conseguindo acompanhar e que estava muito difícil, que foi a única que fez os passos errados. Eu a acolhi abraçando-a, dizendo que realmente foi uma aula difícil e fomos para a casa.
Deixei passar um tempo para ela descansar e se acalmar. Então, fui ao encontro dela e disse que estava muito orgulhosa da atitude dela naquele dia, pois ela não desistiu. Se esforçou e não desistiu. Mas aí, lembrei, que talvez fosse importante eu saber como foi a experiência para ela. Então perguntei e eis a resposta:
– Mãe, foi mais ou menos. Queria ter a liberdade de falar o que eu estava sentido, de falar que estava muito difícil para mim. Mas eu não consegui.
Então, me dei conta do que eu tinha feito e respondi, na hora:
– Filha, me desculpe. Não estou mais orgulhosa da sua atitude, uma vez que ela não te deixou confortável. Como posso mesmo te ajudar na próxima situação?
E assim, fico reflexiva… Como foi fácil para mim tirar conclusões precipitadas a respeito dos sentimentos da minha filha ao passar por esta experiência. Na minha cabeça, o esforço tinha compensado, uma vez que ela conseguiu completar a aula. Como é que eu naturalmente a estimulei a tentar, tentar, não se posicionar e se orgulhar por ter atingido um objetivo, mesmo que calada. Como que eu, precipitadamente, me posicionei a elogiar esse comportamento sem ao menos saber como foi para ela?
Apesar de compreender a importância dos sentimentos dela em todos os momentos, eu ainda caio e escorrego e quando assusto, concluo as percepções e sentimentos dela a partir das minhas percepções, dos meus sentimentos… Mas não somos diferentes, não é mesmo? Bom, será que o único caminho da persistência é pela negação da própria expressão? Neste momento, fiquei muito envergonhada e culpada, por ter negligenciado os sentimentos dela…
Mas logo em seguida, ao revisitar nossa conversa, me senti acolhida por também perceber que estou aprendendo. Fazendo um paralelo com jogo de futebol, aos 45 minutos do segundo tempo lembrei e perguntei. E para minha surpresa, ela teve a liberdade de falar para mim a sua percepção, apesar de ser diferente da minha.
Não é lindo esse processo de aprendizagem? Me sinto grata por começar a enxergar os benefícios em ser mãe de pré-adolescente.
Neste misto de sentimentos, me despeço.
Com carinho,
Nívea Viana, mãe da Isabela (13 anos) e da Maria Luisa (11 anos)
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