Conselheiro Lafaiete, 10 de janeiro de 2022.
Querida mamãe,
Não sei a respeito da sua experiência, mas abordar o tema morte, luto no meu dia-a-dia ainda é algo complicado. Na nossa experiência familiar, buscamos abordar esse assunto à medida que tivemos que conviver com situações de morte na nossa família.
E algumas estratégias utilizadas, nem sempre são assim as mais adequadas, tenho consciência. Lembro da morte do meu tio-avó, quando minhas filhas tinham na época 2 e 4 anos. Optamos em levá-las ao enterro, velório e eu utilizei a abordagem de que ele tinha virado estrelinha e funcionou bem para o momento.
Já na morte da minha avó elas já tinham 6 e 8 anos. Quando dizia que ela tinha ido para o céu, virado estrelinha, no velório uma delas me questionou. Mas como assim, mãe, foi para o céu se estou vendo o corpo dela ali no caixão? Os questionamentos começaram a ficar mais reais, né? Não lembro ao certo o que respondi, mas acredito que devo ter falado algo sobre corpo e espirito, corpo e alma e assim ela se contentou e não perguntou mais.
Então, uns anos depois, tivemos uma experiência com a morte ainda mais próxima do nosso convívio familiar. Foi a morte da pessoa que me ajudou a criar as minhas filhas e inclusive a minha filha caçula a chamava de Mãe. E após alguns dias, minha filha chorando muito, a noite ao dormir, me disse:
– Mamãe, estou com tanta saudade da outra mamãe e da vovó bisa.
Meu coração ficou assim apertadinho. Eu não sabia o que fazer e nem se era possível fazer alguma coisa. O que me veio na cabeça na hora, foi dizer a ela:
– Filhinha, me fala algo que você admirava muito na mamãe.
Então ela me disse:
– Ela foi corajosa, né, mamãe, enfrentou a doença.
Então eu disse, toda vez que estiver com saudades dela, busque ser corajosa, assim ela estará viva e presente no seu coração.
Ela então, se acalmou.
Mas no início da pandemia, precisamente no dia 20 de março de 2020, numa sexta-feira, estávamos sentados na sala de jantar, em uma reunião familiar, quando o telefone tocou. Era minha concunhada nos informando que o meu cunhado havia sofrido um acidente e não tinha sobrevivido.
Todos nós ficamos extremamente assustados, mas o meu marido desesperou de uma forma que nem eu, nem as meninas nunca tinham o visto assim, com razão, né, ele era seu irmão. Também, nunca tínhamos passado por uma experiência dessa natureza. E naquela loucura toda, eu não sabia o que fazer. Além de muito assustada, não sabia a quem dirigir a minha atenção, se para o meu marido ou para elas.
Chegou um momento em que elas não conseguiram mais vê-lo e foram para o quarto. Passado umas horas, ele foi para a casa dos pais dele e eu fiquei em casa com as meninas, foi quando elas me disseram:
Uma disse:
– Mamãe, será que o papai voltará a sorrir algum dia? Será que ele voltará a contar piadas?
E a outra me disse:
– Mãe, como devo fazer. Estou muito triste com a notícia, mas não consigo chorar, será que isso é um problema?
E assim, fomos conversando. Nem tudo eu consigo responder e as vezes acho até que complico mais que esclareço. Afinal de contas, tem tanta coisa que não é clara para mim, como conseguirei passar clareza para elas, né? Acredito, sinceramente, que no fundo, o que me alivia é conversar com elas. Perceber, através das perguntas, a liberdade que elas sentem ao fazê-las das mais diferentes formas… Quanto as respostas, antes, eu me esforçava para responder… Agora, vamos construindo juntas…
E assim, me despeço.
Nívea Viana, mãe da Isabela (13 anos) e da Maria Luisa (11 anos)
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