Varginha, 14 de janeiro de 2022
“Ter tudo”. Talvez a maior armadilha de todos os tempos para as mulheres tenha sido a criação dessa expressão. Essas duas palavras pretendem ser estimulantes, mas na verdade, deixam todas nós com a sensação de ter falhado. Todos nós estamos lidando com a otimização forçada que é a vida, tentando maximizar nossa utilidade na base de parâmetros como carreira, filhos, relacionamentos e empenhando-nos ao máximo para alocar os recursos do tempo.
Eu cresci em uma geração que dizia: “o melhor marido é um bom emprego” e essa frase ficou martelando na minha cabeça quando decidi casar e depois ser mãe. Eu estava em um ótimo momento profissional, realizada, com um bom salário que me permitia realizar os sonhos que colocaram na minha cabeça (viagens para o exterior, um grupo de amigos descolados e intelectuais, comprei meu apartamento, tinha uma boa estrutura familiar) eu ouvia as pessoas falando, faça TUDO antes de ter filhos. E assim eu fiz. Estudei, trabalhei, viajei…acreditando que essa era a realmente a receita do “sucesso” para uma vida feliz. E sim, fui muito feliz mesmo por que essas decisões faziam sentido naquele momento da minha vida.
No auge de tudo eu decidi engravidar. Não…não foi aquele momento romântico que dizem por ai: “eu senti que era a hora de ser mãe”, não foi nada disso, eu tinha 32 anos e sabia muito bem que o relógio biológico da mulher é irredutível, eu já tinha 5 anos de casada, e tinha planejado engravidar exatamente após 5 anos, pra poder “curtir o casamento antes”, e eu queria muito esse filho. E chegou esse momento, e para minha surpresa tudo saiu como o planejado, dois meses de tentativas e aí pá: positivo! gravidez tranquila, planejada, tive pouco enjôo, trabalhei até o oitavo mês sem nenhuma dificuldade, fiquei um mês de férias descansando em casa esperando o parto por que coincidiu com as férias da faculdade e até a data de nascimento foi perfeita nasceu dia 30 de Janeiro, dia 02 de fevereiro eu estava de licença maternidade. “Um bebê acadêmico”, não atrapalhou nem o semestre letivo dizia meu chefe na época. Eu tinha uma rede de apoio incrível, família, uma boa ajudante em casa, um marido que estava disposto a participar da criação do filho e um bebê lindo e cabeludinho como sempre sonhei. Como boa acadêmica devorei todos os livros de Montessori e apliquei com meu filho. Reduzi minhas horas de trabalho, ajustei minha rotina e faço o meu melhor dentro das condições que eu tenho no momento.
Um certo tempo depois, meu marido chega em casa dizendo que a empresa dele seria transferida pra outra cidade e fecharia as portas aqui onde morávamos. Como assim? Eu teria que largar tudo que construí até então e começar do zero em um lugar onde eu não conhecia ninguém e perderia toda minha rede de apoio??? e todo mundo me dizia: “você precisa acompanhar seu marido” e o próprio me falava: “ A Polly? workaholic? Nunca vai largar o emprego dela pra me acompanhar”. Fui conversar com as outras esposas e uma me disse: “você tem dúvidas? eu já teria arrumado as malas”. Ninguém pensa em você, na sua jornada, no seu esforço, nas suas conquistas e o quanto elas são importantes para sua felicidade e realização pessoal.
Eu não sou só a Pollyanna esposa e mãe, eu sou uma mãe determinada a seguir uma carreira profissional de sucesso e que sonha com um mundo melhor, e não abro mão da vaidade e do amor próprio. Uma mulher não vive só dos filhos ou da sobrevivência funcional que ganhou novas cargas durante a pandemia. O que mantém uma mulher viva são seus projetos, suas paixões, sua alma criativa. É da ordem da nossa identidade sem isso, nos esvaziamos, viramos sombras de nós mesmas, à mercê das demandas alheias. No entanto, como achar energia para alimentar nossas paixões? Como achar esse espaço físico e emocional?
Talvez seja uma missão para a vida toda.
O estereótipo da mulher que trabalha raramente é atraente. Se uma figura feminina divide o tempo entre trabalho e a família, vive quase mortificada e com grande sentimento de culpa. A pouco tempo uma pessoa me fez o melhor elogio da minha vida, falou que me admira como mãe. De fato sou uma boa mãe para o meu filho, mas gostaria de esclarecer que antes de tudo sou boa pra mim e tenho feito um exercício diariamente de acolher a minha dor e entender que toda dor é legítima. Não vou fingir que está tudo bem, que sou evoluidona, eu não sou. Preciso assumir minhas vulnerabilidades, ter direito às minhas dores.
Procurei uma terapeuta, eu precisava conversar com alguém que não me julgasse. E uma das perguntas mais importantes que ela me fez foi: o que você faria se não tivesse medo? Eu não consegui responder, mas adotei duas metas simultâneas: um sonho em longo prazo e um plano de dezoito meses.
Meu marido queria largar o emprego, meu filho estava sentindo falta do pai. Meu marido foi primeiro e seis meses depois eu decidi mudar, fomos de mala e cuia. Nessa mesma época, engravidei pela segunda vez sem ter planejado e perdi o bebê logo no início da gravidez, um aborto natural, meu marido descobriu uma diabete e meses depois do aborto natural eu entrei em menopausa precoce aos 39 anos, e voltei a estaca zero na vida profissional. Eu jamais poderia adivinhar o caminho que percorreria desde o meu ponto de partida até onde estou hoje.
Logo que cheguei na cidade nova fui trabalhar na faculdade. Uma cidade pequena com uma universidade que estava em processo de crescimento. Eu era a única mulher no corpo docente dos cursos de Computação. E logo que fui contratada eu ouvi do meu chefe: “Nossa, uma mulher na Tecnologia? Você é ousada”. Uma aluna de outro curso participou de uma palestra minha e me falou: “Nossa, eu não sabia que mulher podia atuar na área de Computação”. Em um ano fui promovida a um cargo e liderança. Hoje eu percebo que além o meu trabalho, minha missão ali era traçar uma estratégia para um mundo mais igualitário.
Meu filho Bernardo, hoje com 10 anos, entrou na pré-adolescência. Eu, aos 43, entrei na menopausa. É uma nova fase para nós dois. E meu aprendizado, neste momento, é parir a mim mesma de novo. Olhar para mim, para os meus projetos. Não dá para pensar só no futuro dos filhos, temos que pensar no nosso também.
Desde então sempre falo para os meus alunos, especialmente para as mulheres: encontre a carreira certa e subam até o topo. Empenhe-se muito. Espero que vocês encontrem um significado autêntico, alegria e paixão em suas vidas. Espero que ao atravessarem tempos difíceis, vocês saiam com mais força e determinação. Espero que encontrem o equilíbrio que buscam mantendo os olhos bem abertos, tenham ambição de fazer sua vida acontecer. E antes de tudo perguntem a si mesmas: o que eu faria se não tivesse medo? Aí vão e façam.
Eu sou Pollyanna Miranda, 43 anos, mãe de Bernardo de 10 anos.
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Estava lendo postagens aleatórias que apareceram no meu leitor e, veja só, que texto lindo encontrei. Curiosamente, tenho me sentido sem rumo e esse texto veio em boa hora pra me fazer refletir sobre o que eu quero pra minha vida, e sobre o que me amedronta para buscar isso. Linda escrita, grata por compartilhar!