Conselheiro Lafaiete, 25 de novembro de 2021
Querida mamãe,
Hoje me lembrei de um episódio da pandemia. A pandemia e o isolamento social trouxeram a tona algumas questões familiares muito interessantes, não é mesmo? Pelo menos para mim foi assim.
Não sei se você teve a oportunidade, mas ouso dizer que acredito que de uma forma ou de outra você deve ter se deparado com uma situação parecida. Sabe aquele dia só de confusão? Para falar a verdade, acho que eu já acordei pensando assim: “Ai, mais um dia nesse isolamento, não estou aguentando mais.” Então respirei fundo, tirei forças não sei de onde para começar o dia e encarar a rotina.
Mas a verdade é que não consegui. Fui buscar alternativas para fazer com a minha filha e tudo o que eu consegui, foi deixá-la muito nervosa por tentar estimulá-la a fazer coisas que ela não queria. Resultado: muito choro e muita confusão. E especialmente neste dia, fiquei extremamente chateada. Me senti exausta por todo o esforço que eu estava fazendo sem resultados. Lembrei de uma série de estratégias, usei quase todas e advinha… Sem sucesso!
Fui para o meu refúgio. O meu refúgio é uma rede que fica no fundo da casa. Permaneci lá por um tempo, bem quietinha. Sabe aquele momento que você tem a sensação que se ficar assim, escondidinha quando voltar a realidade tudo estaria diferente? Pois é, assim o fiz. Mas esse tempo não foi o suficiente para alterar o meu estado de espírito e já se aproximava o horário do almoço.
Voltei do meu mundo e fui preparar o almoço… Tudo de novo. Tudo o que eu falava, resultava em confusão, desentendimento, tumulto.
Foi aí, que a Isabela, minha filha mais velha, saiu do quarto dela e disse com todas as palavras, mas de uma forma extremamente natural e tranquila:
– Sabe de uma coisa, acho que estamos todos de saco cheio uns dos outros.
Simples assim… Soltou essas palavras, deixo-as ao vento e voltou para o seu quarto.
A minha primeira sensação foi de espanto. A naturalidade e a sensatez das palavras dela me paralisaram e me fizeram refletir. Será que era mesmo verdade? Como assim estamos cansados da convivência familiar? Mas a família não é o nosso bem mais precioso? É possível ficar cansado da convivência daqueles que consideramos as pessoas que mais amamos no mundo? No primeiro momento, eu não me permitia admitir algo dessa natureza.
Mas com o passar do tempo e com essa pergunta me assombrando, fui chegando a conclusão que era possível ser isso mesmo. Mesmo das pessoas que mais amamos, ficamos sim, cansados da convivência. E está tudo bem. E o fato de estarmos cansados da convivência na verdade não tem nada a ver com o amor que sentimos uns pelos outros.
Chegar a esta conclusão foi algo tão gostoso e libertador para mim! Passei até a repetir em voz alta. É isso, mesmo minha filha, estamos todos de saco cheio uns dos outros. Conseguimos ajustar a nossa rotina e as meninas ficaram uns dias na casa das avós. No retorno, estávamos todos mais leves e mais tranquilos.
Muitas vezes, me encanto com a espontaneidade das minhas filhas e o tanto que eu aprendo com elas. Como é importante permitir sentir e externar o que sentimento. Isso faz toda a diferença.
Agradecida por mais um aprendizado, me despeço carinhosamente
Nívea Viana, 44 anos, mãe de Isabela 13 anos e Maria Luisa, 11 anos.
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