Conselheiro Lafaiete, 29 de agosto de 2021.
Querida mãe,
Hoje me sinto reflexiva a respeito da questão da importância dos papéis e como eles se misturam e se confundem em algumas situações.
Há aproximadamente uns cinco anos, resolvi dar aulas de inglês para as minhas filhas. Incertezas na economia do país, disponibilidade de tempo (fiquei um período trabalhando 6 horas diárias) e uma vontade genuína de deixar mais um legado para elas me levaram a tomar essa decisão. Além do mais me encantava a possibilidade de construir momentos de qualidade, momentos que nos conectariam ainda mais. Será?
Passei cerca de 8 meses me preparando e ao iniciar as aulas, de cara me deparei com um desafio enorme, a Isabela alfabetizada e a Lulu no processo de alfabetização. Então em muitas aulas, era uma confusão danada. Os papéis de mãe e professora, colegas de turma e irmãs se confundiam constantemente e refletiam através de falta de paciência, discussões, choros, confusão total. Eu me esforçava para adaptar a metodologia de maneira intuitiva, com muita dedicação e na minha visão momentânea, pouco sucesso. E assim fomos levando… Conseguimos finalizar o primeiro livro e celebramos com uma formatura. Roupas especiais, diplomas, discursos, e um coquetel. Nós quatro. Foi tão divertido, que se transformou em motivação para finalizarmos os outros livros.
Mas acontece que com o passar do tempo, o desenvolvimento das meninas, os desafios da minha transição de carreira, os conflitos nos dias de aula de inglês foram se intensificando. Constantemente esses momentos de união com filhas, acabavam com muita discussão, choro, conflito e eu completamente perdida. Eu realmente não sabia o que fazer. Buscava alternativas, como livros infantis, músicas, jogos… Mas as confusões se mantinham e tornaram-se constantes.
Outra questão que descobri é que o ensino de inglês motivava o funcionamento do intestino delas. Era falar que estava na hora da aula, que elas corriam para o banheiro. É mole?
Uma vez, tentamos a alternativa de dar aulas separadas, durou somente umas duas semanas e elas já pediram para eu retomar com as aulas juntas. Irmãs, né, brigam mas não querem ficar longe. E assim formos seguindo.
Com a minha saída da empresa, a pandemia e toda a dificuldade de adaptação em casa, resolvi dar um tempo. Eu sinceramente não estava preparada para enfrentar mais essa batalha. Então ficamos cerca de 1 ano e meio sem aulas oficiais. Como elas já entendiam bem, eu estimulava o aprendizado conversando com elas no dia a dia, durante as refeições, ou quando estávamos fazendo algo. Essa estratégia funcionou melhor para a Isabela do que para a Lulu, a caçula, que me dizia com frequência: Não quero falar inglês. Só na hora da aula. Para de falar assim comigo, mãe. Além do mais, para que preciso aprender, se existe o google translator?
Na minha cabeça, o medo do aprendizado da língua inglesa se transformar em um tormento, ou um trauma, me fazia relaxar e dar mais tempo.
Essa semana, mais tranquila, resolvi retomar as aulas. Desta vez, por falta de opção, elas estão separadas. Aí, pensei, vou diminuir o tempo das aulas e vai ser mais tranquilo. Será?
Com a Isabela, deu certo. Com a Lulu, primeira aula, tudo lindo… Segunda aula, 20 minutos de chororô. Muita argumentação, muito conflito, agressividade.
Fiquei um tempo pensando, refletindo e quando nos acalmamos, fui conversar com ela. Argumentei que talvez o inglês não nos aproximasse e propus outra alternativa, tipo uma professora.
Retomando o choro, ela me disse, que não, queria que fosse eu mesma.
E uma hora mais tarde, quando a rotina se reestabeleceu e eu estava cozinhando, ela se aproxima e espontaneamente começa a falar em inglês comigo.
E assim, apesar de confusa, perdida me senti renovada para prosseguir com as aulas na semana que vem. Para mim, esse é um dos segredos que traz leveza para o meu maternar. Entender que elas são diferentes, buscar novas formas de estimular, de inspirar, construir soluções conjunta e estar atenta aos resultados, pois eles aparecem, mas de forma individual. E assim, agradecida, sorrir e recomeçar confiante…
Um abraço carinhoso,
Nívea, 44 anos.
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