Congonhas, 8 de junho de 2025
Queridos leitores,
Espero que esta carta os encontre bem.
Pensei em várias palavras para descrever minha mãe, mas nenhuma me pareceu suficiente. Quase sempre a vi como uma fortaleza, alguém que sempre sabia a melhor atitude a tomar, mesmo em meio às situações mais absurdas. Era ela quem organizava tudo, resolvia as emergências, dava bronca quando necessário, mas também sabia como acalmar meu coração em silêncio. Acho que, por um tempo, esqueci que ela era humana antes de ser mãe.
A gente, como sociedade, tem essa mania de confundir as coisas. Vemos as mães como super-heroínas: incapazes de errar, prontas para tudo, o tempo todo. E, por muito tempo, foi assim que eu vi a minha. Parecia que ela nunca cansava, nunca chorava, nunca se sentia perdida. Mas isso, hoje eu sei, era só o que eu enxergava — e não tudo o que ela sentia.
Lembro de um dia em que percebi que ela não sabia o que fazer. Não lembro exatamente qual era a situação, mas lembro do que senti: frustração. Como assim ela não sabia? Como ela não tinha a resposta? Na minha cabeça, ela deveria ter todas. Demorou um pouco pra eu entender: era a primeira vez dela sendo mãe também. Ela não recebeu um manual, ninguém ensinou tudo que ela precisava saber. Ela aprendeu enquanto fazia.
Hoje, olhando para trás, parece óbvio. Como ela poderia me dar todas as respostas, se ninguém nasce sabendo ser mãe? Às vezes, nem a gente sabe o que quer escutar. E tudo bem. Porque aprendi que, nessas horas, um abraço silencioso pode ser tudo. Um “eu te amo” dito no meio do dia já faz o mundo parecer mais leve. E nisso, as mães são especialistas. Elas não resolvem tudo, mas têm um jeito de fazer a gente se sentir menos sozinha no caos.
Hoje, olho pra minha mãe com mais empatia. Já não enxergo só com os olhos de filha, vejo também a mulher. A mulher que existia antes de mim e que continua existindo agora, mesmo que às vezes fique em segundo plano. Acho que é isso que tantas vezes esquecemos: que por trás da mãe, existe alguém com desejos próprios, histórias guardadas, medos e sonhos que talvez nem sempre pôde seguir.
Tenho me perguntado como é envelhecer sendo mãe. Será que ela sente que ainda tem tempo de correr atrás dos próprios sonhos? Será que ela se cobra por não ter feito mais ou diferente? Às vezes, tenho vontade de perguntar. Outras vezes, só observo e aprendo. Quando entendi que minha mãe não era indestrutível como as heroínas dos desenhos, mas que ainda assim era forte de um jeito que eu admiro, cresceu em mim um carinho diferente.
É um amor que carrega admiração, mas também compreensão. Um amor que não exige perfeição, mas oferece presença.
Tenho 18 anos, filha de uma mulher de 37. E sigo aprendendo com ela — como viver, como errar, como recomeçar.
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