Conselheiro Lafaiete, 4 de julho de 2025
Como é estranho e, ao mesmo tempo, gratificante perceber que nossas percepções mudam conforme nossas vivências e o amadurecimento. É estranho porque, muitas vezes, não sabemos descrever detalhadamente o percurso que gerou algumas mudanças em nós e em nossas vidas. Tenho a impressão de que não são apenas os grandes acontecimentos que provocam essas transformações; talvez algo mais sutil, como a observação inconsciente do comportamento de alguém que nos inspira, uma fala solta ou o trecho de uma música. De algum modo, temos a possibilidade de constatar que algo mudou, seja porque agimos de forma mais ponderada ou pensamos diferente em uma situação parecida com outra que já vivenciamos no passado. E isso, de certa forma, é gratificante.
Há um tempo, mais especificamente na minha adolescência, eu era impulsiva e muito tempestiva em situações que me causavam mal-estar; tinha atitudes e pensamentos egocêntricos, e as consequências nem sempre eram benéficas para mim ou para os outros. Hoje, com um pouco mais de maturidade, consigo compreender as raízes desses comportamentos. Embora tenha sido importante reconhecer as causas, agora tenho consciência de que permanecer no papel de vítima e remoer situações ruins nos deixa cada vez mais angustiados e deprimidos. Tento ressignificar situações que não foram tão agradáveis, sem romantizar, tornando-me responsável pela forma como lido com o que fizeram comigo e com as atitudes que tive. Mas se perguntarem o que me fez amadurecer, dariam dias de conversas, pois eu não sei exatamente quando algo mudou, mas sei que não foi fruto somente de uma situação.
Acredito ser fundamental desenvolver a consciência de quem somos e prestar atenção às nossas atitudes, além de observar quem são as pessoas ao nosso redor, pois elas também influenciam nossos comportamentos, pensamentos e crenças. No entanto, com a observação, podemos limitar essa influência. Ao compreender isso, fica menos complexo separar o que é nosso do que é do outro, e começamos a perceber com mais clareza como os outros nos afetam e como nós os afetamos. Assim, podemos ser verdadeiramente livres e responsáveis por nós mesmos, mesmo sem controlar o que é externo a nós. Com o tempo, desenvolvemos habilidades que nos auxiliam a lidar melhor com o que nos preocupa e perturba.
Quando somos jovens, almejamos o pódio e não há nada de errado em desejarmos o melhor para nós , mas, muitas vezes, esquecemos que o caminho até lá exige sabedoria e responsabilidade para não nos perdermos e uma constante vigilância para evitar falsas convicções e ilusões que podem amargar nosso ser. No livro Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche, há uma parábola chamada “A Árvore da Montanha” que me tocou profundamente, tem um trecho que diz: “Se eu quisesse balançar essa árvore com as duas mãos, não conseguiria. Mas o vento, que nós não vemos, pode atormentá-la e dobrá-la como quiser. É por mãos invisíveis que somos atormentados e dobrados da pior maneira.” Esse trecho, para mim, foi muito ilustrativo, pois mostra o quanto é necessário cuidarmos das nossas “mãos invisíveis” (sentimentos, emoções, crenças, princípios e pensamentos) para que elas não nos dobrem e não conduzam nossas atitudes de maneira inconsciente, tornando-se as “mãos invisíveis” para nós mesmos e para os outros.
Estar em constante vigilância provoca tensões e, muitas vezes, traz incômodos que, quando estamos distraídos, nem percebemos ou sentimos. Contudo é importante nos mantermos atentos até que possamos compreender quem somos, o que nos afeta e como nos afeta, para que possamos nos resguardar das mãos invisíveis.
Tenho 22 anos
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