Madrid, 5 de fevereiro de 2025
Sempre fui íntima das palavras. Desde a infância virava noites lendo livros, a escrita faz parte da minha vida profissional e, comigo, a conversa flui naturalmente. Em resumo, sou aquela nerd boa de papo.
Até que Teodoro nasceu. A partir dali, me transformei mesmo em uma nova mulher e, curiosamente, as palavras me faltaram. E seguiram distantes por um bom tempo, até imaginei que não voltariam para a minha intimidade.
A conversa deu espaço ao olhar, ao toque, ao cheiro. Me entendo com meu filho sem precisar emitir frases. A leitura tornou-se escassa por ausência de tempo livre e excesso de cansaço, de modo que ela estava presente para busca de entendimento sobre assuntos novos em minha rotina, tais quais: funcionamento neurológico do bebê, crescimento físico, rotina de sono, boa alimentação… Já a escrita, essa foi a que mais me intrigou, talvez por ser a que mais tomou tempo para voltar para mim. Estar nesse momento escrevendo essas palavras é, sobretudo, um processo terapêutico de autoconhecimento, sinto como mais um passo dado para a retomada de minha autonomia.
Meu filho está a ponto de completar três anos. Sou uma mulher apaixonada pela maternidade. Aliás, sempre soube que seria mãe, mesmo em remotos tempos, quando passei por situações de saúde nas quais pessoas ao meu entorno questionaram essa possibilidade. Nunca me preocupei com essas indagações, pois era certo que eu seria mãe, seja como fosse, isso estava destinado a mim. Eu sabia. Sempre soube.
Longe de romantizar o ato de maternar (que por muito tempo me pareceu mais exaustivo do que eu poderia suportar, que fez eu escolher deixar dormindo tantos outros aspectos da minha vida – ironicamente, talvez a única coisa que tenha dormido bem nos últimos anos foram todos os demais planos, já que noites claras e dias exaustivos tornaram-se rotina por aqui), mas de fato me sinto uma ótima mãe: dedicada, contente, sem amarras que me poderiam gerar algum tipo de culpa, sem expectativas a não ser criar conexão natural com um novo ser humano e, a partir disso, beber da fonte poderosa gerada pela construção do amor. Acho mesmo justo que muito custe o que muito vale.
Foi a maternidade que me fez ter a certeza da importância de estar rodeada de pessoas que lhe querem bem, em especial de mulheres que cuidam daquela que está cuidando. Acredito que é uma experiência necessariamente solitária, vez que cada mulher exerce um maternar próprio, mas poder compartilhar com amigas as dores e delícias da construção dessa jornada tem sido fundamental. A potência das relações interpessoais femininas tem também poder curativo.
Minha gestação foi bonita, me sentia preparada e feliz por estar vivendo aquele sonho. E aí, eu pari. Parir Teodoro foi o ato mais revolucionário da minha vida. Foi ali que entendi a divindade que habita todos nós, sobretudo as mulheres, portais do mistério. Toda mulher é uma espécie de deusa, e foi assim que me senti ao trazer uma nova vida ao mundo. Inquebrantável, muito segura de minha potência e das possibilidades que a vida me permite ter. Entendi ali, ao segurar meu menino nos braços, a força sobrenatural, ainda inexplicável, que me mostra o potencial que tenho guardado em mim. Ainda hoje, quando questiono minha capacidade, busco por meu filho e, ali, vejo materializado o sonho que meu corpo foi capaz de criar.
Bem, é ainda difícil colocar em palavras o meu maternar, as busco e não as encontro com precisão. Me parece insuficiente, pequeno, ínfimo perto de toda a mudança que venho vivenciando.
Avassalador. Divino. Potente. Sagrado. Doloroso. Maravilhoso. Um percurso sem volta. Assim é minha experiência na maternidade, aquela que me transforma todo santo dia e me dá forças para novos sonhos, ao mesmo tempo que me conecta ao meu passado e reafirma minhas bases.
Por fim, entendo um pouco mais sobre o quão difícil tem sido voltar a escrever. Uma das funções da escrita é não deixar esquecer, é, de certa maneira, eternizar aquilo que se coloca em palavras. Talvez elas não tenham sido necessárias por aqui a priori com a maternidade, tão particular, única, íntima, pois essa fez em minha alma cicatrizes que a memória – muitas vezes falha – não será capaz de olvidar, afinal meu corpo gerou também uma nova mulher. Essa que tem com seu filho uma relação já eternizada no tempo espaço do universo.
Tenho 36 anos e sou mãe de um menino de 3.
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