Ouro Preto, 25 de Agosto de 2024
A diversidade na minha vida sempre foi uma constante, moldando minha identidade e minhas experiências de maneira profunda. Nascendo em um bairro de classe média baixa, em um hospital popular, minha entrada no mundo já foi marcada pela luta e pela realidade de muitas pessoas que vivem à margem. Desde o início, percebi que o contexto ao meu redor era um mosaico de histórias, culturas e vivências.
Crescer em uma casa de esquina, perto do Santuário São Judas Tadeu, me proporcionou um senso de comunidade, mesmo em meio às adversidades. Que bom fazer esse resgate de memórias! Minha infância foi repleta de vivências intensas e marcantes, com muitas brincadeiras e jogos na rua, como “queimada” e “pega-pega”, criaram um ambiente de liberdade e diversão, apesar dos riscos que surgiram com o aumento do trânsito. Os acidentes na esquina da sua casa realmente eram uma preocupação constante, um contraste com as lembranças alegres da infância.
Lembro que, abaixo de nossa casa, havia um aglomerado de pessoas pobres que, apesar das dificuldades, mantinham sua dignidade e alegria, e exemplos de casa limpa. A televisão, um bem raro no bairro, era um símbolo de esperança e conexão com o mundo, enquanto as panelas brilhantes refletiam o cuidado e a resistência de quem ali vivia.
Acima, a casa do espanhol e do bar do maçom eram pontos de intercâmbio cultural, onde histórias se cruzavam e a diversidade se manifestava de diferentes formas, como uma família composta pela mãe, o pai e um casal de filhos pequenos e o pai que também tinha um namorado virou manchete, por suicidar em um avião. Na casa da minha avó paterna e dos meus tios, a mistura de famílias — a adoção do meu primo e a convivência entre os filhos — era uma lição viva sobre aceitação. Aprendi desde cedo que a família não se limita a laços de sangue, mas se constrói também por laços de afeto e solidariedade.
Na rua de cima, a cooperativa do Banco do Brasil se tornou um espaço de trabalho coletivo, e de diversão, enquanto ia para a escola pública, onde estudei até a antiga admissão, essa foi um portal para o conhecimento e a formação de minha personalidade. Ali, pude vivenciar a pluralidade de pensamentos e as diferentes realidades que coexistem.
Com a transformação do bairro e as desapropriações para a construção de uma grande avenida, túnel e passarela, testemunhei a dinâmica da vida urbana e como a diversidade também se reflete nas mudanças e adaptações que fazemos. Cada esquina, cada vizinho, cada história que se entrelaça com a minha, contribuiu para a pessoa que sou hoje.
A minha trajetória escolar também é inspiradora. Lembro que concorri a vagas para cursar a partir da 5ª. Serie, (que me resultou em uma carta de parabéns do meu irmão que veio a surtar anos depois, e viver internado, diagnosticado com uma doença mental) em três colégios: Instituto de Educação (eu, tinha sonho de ser pedagoga, porém só vim a me formar psicopedagoga, por volta dos 60 anos), o Colégio Estadual e o Centro pedagógico da UFMG e foi este, que eu escolhi, e depois estudei no COLTEC.
Me fizeram usar o transporte público sozinha desde os 11 anos, também fazia aulas de música no alto do Avenida Afonso Pena (nunca aprendi a tocar violão e nem cantar) e aos 18 anos fazia cursinho na Savassi, com bolsa de estudos. Saía as 6 horas e voltava para casa no último ônibus, quase meia-noite e por muitas vezes vinha dormindo no ombro de uma moradora do aglomerado. Lembro das minhas idas ao cinema, teatros, show de MPB gratuitos e o episódio com o mendigo, que escarrou na minha perna, após eu passar por ele… Mostram como momentos simples podem ser impactantes e nos moldar de várias maneiras. A vida é cheia de surpresas e aprendizados, e cada experiência, positiva ou negativa, contribui para quem somos.
Vim para Ouro Preto aos 20 anos, onde fundei e vivi em república da UFOP, particular no início e depois pública, conquistada com muita luta estudantil. O meu tempo nessa universidade, fiz graduação, mestrado e doutorado. Casei pós formatura em Nutrição, com minha alma gêmea, engenheiro e, aqui fiquei morando em bairro “chique”, trabalhando concursada, em Prefeitura até me aposentar, e ainda continuo seguindo com capacitações, o apoio, a proteção e promoção da amamentação, pelas políticas para a Primeira Infância e busca de benefícios para toda a população.
Tive meus filhos, que penso ter criado com todos meus valores (inclusive religiosos), a minha casa vivia cheia de amigos/ colegas…, mas a vivência, na prática, acredito que foi diferente, com ótimos resultados: ambos foram estudar na área de exatas, mas trabalham diretamente com gente. Por exemplo: um na prefeitura, apoiando as melhorias de habitação, outro no UNICEF, levando internet para a periferia. Ambos, com inclusão, com respeito ao gênero, etnia, pessoas com deficiências, orientação sexual, idade; com dignidade, prosperidade. O que muito me orgulha, pois sei que prestam serviços com amor, e sonham com as melhorias de vida para mais pessoas, para comunidades.
Assim, a diversidade não é apenas um aspecto da nossa vida; é a essência dela. É através da convivência com diferentes culturas, realidades e formas de amor que aprendemos, sobre empatia e respeito. Acredito que essas experiências nos tornam mais fortes e mais conscientes do mundo ao nosso redor, e é essa diversidade que continuo a celebrar e valorizar. Isso nos lembra que o importante é a jornada e o que aprendemos ao longo dela, e não apenas o resultado final. Cada um desses momentos e decisões vai formando a nossa história única e especial. Cada uma dessas memórias que, de alguma forma, nos moldaram e impulsionaram a seguirmos em frente.
E fico pensando o que mudou da minha infância até agora na vida da população que nos faz pensar como resgatar a boa convivência, buscar não sermos tão preconceituosos, não valorizar a diversidade… e pior! Causando mais desigualdades extremas, tantos desafios familiares… tantos traumas!
Irene Ri, 64 anos, mãe de dois filhos (36 e 34 anos).
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