Congonhas, 5 de agosto de 2024
Sempre quis ser mãe e especificamente de um menino e este desejo não foi por acaso. Por vários atravessamentos e experiências vividas em entendia há 32 anos atrás, que ter um filho “homem” livraria o ser de muitos sofrimentos. Hoje, aliás, há muito tempo, eu entendi que esta questão de gênero é uma construção sócio-histórica. Mas isso é outra história.
Bom, dei à luz a meu tão sonhado filho. Uma criança linda aos meus olhos de mãe e nascia também a fantasia de que eu a protegeria de qualquer dor neste mundo. W foi uma criança muito frágil, sempre doente, necessitando de muitos cuidados.
E o tempo, o senhor tempo, sempre nos faz ver, o que muitas vezes não queremos ver. O medo de ver, entender, reconhecer nos faz cometer violências veladas, impingir sofrimentos de forma inconsciente. Digo isto porque eu percebia que meu filho “homem” era diferente. Nossa relação sempre foi muito, muito amorosa. Sempre “ele” muito doce, frágil e diferente na forma de ver e se comportar.
E os anos foram passando…
Com 18 anos, W. conversou comigo e o pai que ele se sentia uma pessoa diferente, culpada por não corresponder às nossas expectativas de mãe e pai. Naquela hora me senti triste por estar testemunhando no meu filho tão amado, tamanho sofrimento. Ele declarou que era homossexual e se sentia muito culpado. Mediante tanta manifestação de dor eu juntamente com o pai dele, o abraçamos e reforçamos o quanto o amávamos independente da sua condição. O amor a ele é, e sempre será soberano. Passados alguns anos W se identifica com o gênero trans. Nasceu do sexo masculino, porém se vê como uma mulher, do sexo feminino.
Meu amor de mãe e tenho a liberdade de dizer, o amor do pai dela, nos faz entender que a sua felicidade e realização como pessoa é o que nos importa.
Aqui, nessas poucas linhas deixo uma reflexão para mães e as pessoas que leem ou ouçam esta carta. Embora, em muitos momentos temos a crença de sermos onipotentes e que podemos controlar o destino, os desejos e os sonhos dos nossos filhos, sinto dizer que não. Mas podemos o nosso amor
Tenho 52 anos, mãe de uma filha com 32 anos
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