Conselheiro Lafaiete, 17 de maio de 2024
Escrevo essa carta no auge dos quase 40 anos, vivenciando os dias mais turbulentos de toda minha vida. Sou a primeira filha de um casal, casado há 4 anos, sou o que chamam de bebê arco-íris, acho que levei isso ao pé da letra Fui uma filha extremamente esperada nesta família e no dia 16 de junho de 1984 vim ao mundo, já trazendo o caos, nascida de 7 meses. Após alguns meses desenvolvi uma patologia desconhecida, fiquei por meses muito doente e hospitalizada. Do mesmo jeito que a doença chegou, ela se foi, nós nunca sabemos o que de fato aconteceu.
Sempre fui uma criança muito ativa e arteira, muito apegada ao meu pai, que era motorista e viajava o Brasil todo, ficando dias fora. E eu sempre tive febre, chorava de saudade, sempre senti muita falta dele. Minha mãe, aconselhada por uma benzedeira, deixava uma camisa suja dele para eu dormir enquanto ele viajava e quando ele retornava a gente trocava a camisa. Era aquele cheirinho de suor que minimizava a saudade.
Sempre tive muita afinidade com meu pai, sempre estava onde ele estava. Viajava com ele, ia às oficinas de carro com ele, tínhamos uma paixão por carros antigos em comum, ele tinha um amigo colecionador de carros e eu adorava ir à casa dele. Nestas visitas fiquei amiga do filho do amigo e passei a frequentar a casa mais vezes. Nossa brincadeira favorita era eu me vestir com as roupas dele e ele com as minhas. Eu preferia as minhas, na verdade, mas não me importava em ficar só um pouquinho com as roupas dele. Em um dia dessas brincadeiras fomos surpreendidos pelo pai do garoto que deu uma surra no menino como nunca vi ninguém apanhar de um adulto.
Meu pai me levou para casa, na mesma hora, fomos dentro do carro, mudos o caminho inteiro. Ao chegar em casa, ele contou para minha mãe e disse que eu não voltaria mais àquela casa. Foi o único momento que questionei o que havia acontecido, e aí então meu pai me ensinou a ser sapatão…
Olhou para mim e disse que o meu amigo já tinha fama de ser “viadinho” e eu indo lá só afirmaria isso. Disse que não se tem o que fazer, é preciso aceitar ele como ele é, mas ele tem um pai homofóbico que não aceita, e eu não quero você lá, porque não quero que você passe pelo que ele passou hoje.
E seguimos a vida, na adolescência eu me descobri lésbica, porém sem coragem de contar para a família tinha medo de decepcioná-los. Meu pai sempre teve muito orgulho de mim e eu um amor incondicional por ele, na verdade, ele sempre soube quem eu era. Tanto ele como minha mãe, e ele sempre repetia que eu poderia ser o que eu quisesse ser, só não deveria nunca abaixar minha cabeça e aceitar menos do que eu mereceria. Meu pai me fez uma mulher de amor livre, sonhadora e sempre frisou que eu era dona de mim e que poderia ser quem eu fosse. Eu tinha meu valor para ele, sempre fomos cúmplices, vivemos um amor lindo e livre.
Por uma época fui vítima de violência doméstica praticada pelo meu irmão, quando meu pai soube disso ele me defendeu com unhas e dentes, se ele pudesse ele me colocava em um pedestal. Ele era um homem rude, não se via muitos sorrisos, palavras bonitas, mas era tão amoroso que não precisava falar de amor, ele era o próprio amor.
Nós sonhávamos juntos, brigávamos, amávamos os animais, pessoas em condições de rua, planejava construir um abrigo para eles e um canil para os peludos (um “criame”, como ele falava). Mas em 2023, após um acidente fatal de trabalho, ele me deixou, tive e tenho sido muito forte para me manter viva nesses últimos dias. A sensação às vezes é que estou sozinha neste mundo, mas aí lembro do dia que ele me disse: sapatão que se preze tem que aprender de tudo… e soltou uma gargalhada, que eu entendi essa frase como um EU TE AMO imenso. Hoje estou aqui reaprendendo a viver sem ele.
Sou ativista LGBT/ direitos humanos há 20 anos, humanista, ambientalista, psicopedagoga, embaixadora do todxs 2024, escrevo para algumas mídias nacionais como planeta foda, mídia ninja, observatório G, faço voluntariado, enfim… eu existo!
Sou ativista LGBT/ direitos humanos há 20 anos, humanista, ambientalista, psicopedagoga, embaixadora do todxs 2024, escrevo para algumas mídias nacionais como planeta foda, mídia ninja, observatório G, faço voluntariado, enfim… eu existo!
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