Conselheiro Lafaiete, 25 de abril de 2024
Hoje, precisamente hoje, sinto orgulho da minha história e da minha trajetória de superação
Olá a todos. Hoje estou aqui para contar um capítulo da minha história. Acredito que muitas mães vão se identificar e outras talvez não irão entender, pois hoje eu vivo num mundo diferente, numa realidade diferente.
Sim, eu me tornei uma mãe atípica. Mãe invisível, mãe da terapia, mãe inexistente para a sociedade.
Quando tinha 40 anos e contra todas as possibilidades descobri minha gravidez. Era o aniversário do meu filho mais velho. Aniversário de 10 anos. Logo ele que me pedia todos os dias uma irmã. Minha reação? Imagina.
Entrei em choque. Eu tomava todos os cuidados, pois na minha concepção não teria mais filhos, mas a surpresa foi inevitável. No ultrassom de translucência nucal recebi a temida notícia. “Sua filha tem uma pequena alteração na nuca e isso pode ser resultado de uma síndrome, provavelmente uma síndrome de down”. O meu mundo caiu. Afinal, qual mãe deseja ter um filho com deficiência? Não me julguem, mas todas nós sonhamos com uma gestação linda e saudável. No instante em que saí do consultório eu comecei a chorar. Um choro contido, pois meu filho estava comigo e ele já havia me perguntado se a irmã dele ia andar, pois ele tinha que se preparar para cuidar dela. E vergonhosamente por um segundo eu me fiz uma pergunta hipócrita, eu questionei a Deus e fiz a seguinte pergunta “por que eu meu Deus? Por que eu? Eu sou uma pessoa boa, não fumo, não bebo, nunca fiz mal a ninguém”. Me sinto extremamente envergonhada por esse pensamento egoísta, mas graças a Deus foi um pensamento de alguns segundos. E eu me perdoo, pois foi um pensamento formado por medo e segurança, medo do desconhecido. Após esse pensamento voltei para a minha razão e me fiz uma pergunta. E por que não eu? No que sou diferente? E mudando minha linha de pensamento, decidi que ia ser a melhor mãe do mundo para essa criança que nasceria com ou sem deficiência.
Tive uma gestação difícil e complicada. O feto não se desenvolvia como devia. Me senti culpada e com medo que meu primeiro pensamento vergonhoso tivesse gerado no meu corpo uma rejeição pela criança. A médica que me acompanhava me pediu para procurar um especialista e interromper a gestação de 28 semanas. Meu mundo caiu novamente. Como ia explicar para meu filho que a irmã tão desejada por ele não ia nascer? Como explicar para uma criança que teria que interromper uma vida se formando dentro de mim? Nesse mesmo dia recebi minhas encomendas de roupinhas de menina. Uma caixa cheia de roupinhas cor de rosa. A culpa, o medo me consumia e eu só chorava. Mais uma vez o medo estava ali forte e presente me consumindo e me destruindo até o dia da consulta em Belo Horizonte com o médico especialista. O Dr. Henrique olhou para mim e disse as palavras que me aliviou o coração “não vamos interromper uma gestação em que a criança mesmo que pouco está se desenvolvendo. Vamos pedir a Deus que dê tudo certo e que ela nasça saudável e cheia de energia”. Novamente veio o choro, mas era um choro de felicidade e de esperança. Conseguimos levar a gestação até 38 semanas. Fui para o hospital me sentindo muito mal e fui transferida para BH para o nascimento da minha filha (o nome dela, meu filho fez questão de escolher por ser a irmã tão desejada). O medo continuava comigo e durante o trajeto dentro da ambulância me fiz às seguintes perguntas:
Como seria o parto? Nasceria uma criança com deficiência?
Será que minha filha teria força suficiente para sobreviver? Essas e muitas outras questões seguiam comigo.
E ela nasceu e veio ao mundo para mostrar sua força. E nasceu com síndrome de down. E nasceu para me tornar uma pessoa melhor e nasceu para mostrar que a deficiência não a define e nasceu para mostrar que todas as pessoas pertencem a esse mundo. Me emociona só de lembrar do nascimento da minha pequena. Só consegui conhecer minha filha depois de uma semana devido às complicações no parto, e durante esse tempo o medo estava lá a todo instante.
Será que ela está bem?
Será que está sendo bem cuidada?
Será que está sentindo falta da mãe?
Eu não estava lá para protegê-la. E eu novamente só chorava.
E no dia que fui conhecer minha pequena recebi mais uma notícia. A minha pequena menina, de olhos puxadinhos, teria que passar por uma cirurgia no coração. É uma cirurgia simples, diziam os médicos, mas qual cirurgia para o coração é simples? Ela só tinha 20 dias de vida e já tinha que passar por mais uma provação. E mais uma vez meu coração de mãe se dilacerava e eu só chorava, mas o restante dessa história fica para outro capítulo. Afinal de contas, toda a história tem um início, meio e um fim.
Tenho 44 anos com um filho típico de 13 anos e uma filha atípica de 3 anos
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