Congonhas, 27 de outubro de 2021.
A pouco tempo fiquei pensando nas vezes que vi duas filhas minhas ficarem com a cara fechada para mim. Foram momentos diferentes, porém, penso que foi pelo mesmo motivo: a separação. Ficar longe dos pais, em especial da mãe, pela primeira vez.
Como já disse na carta anterior, engravidei da Elis quando eu finalizava o mestrado. Após a defesa veio a pergunta: E agora? Eu preciso trabalhar. Rezei tanto, tentei diferentes processos seletivos, enviei currículo e consegui mais de um emprego. E quando Elis tinha cerca de oito meses, eu precisava deixá-la com alguém para lecionar. Não tínhamos condição de pagar uma escola particular e a creche pública não tinha vaga. Depois de muito procurar, conseguimos uma senhora que olhava crianças, em um bairro diferente do que morávamos.
Eu ia de ônibus até a casa dela, deixava Elis lá e ia para escola em que daria aula. Isso só ocorreu por dois dias. Pois no segundo dia, a senhora disse que não podia ficar com Elis porque ela chorava muito. Seu choro era forte e alto. Ela tinha suas preocupações, que eram compreensíveis. Enquanto ela falava e me explicava os motivos para não ficar com um bebê assim, eu só prestava atenção na minha filha.
O choro não me preocupava, pois eu conhecia. Já tínhamos levado ao pediatra e questionamos sobre o choro excessivo e alto. Ele disse que não era dor alguma, ela era uma menina saudável e nós podíamos ficar sossegados. Ele ainda brincou: “sinal de que seus pulmões estão excelentes”.
Com Elis no meu colo eu ouvia a senhora e pensava: não fica brava com a mamãe, vamos resolver tudo isso. Me doía demais ver a cara fechada, os olhos vermelhos de choro e de raiva. No ponto de ônibus eu chorava, com o coração apertado e ficava pedindo a Deus uma solução.
Minha sogra se prontificou a ficar com ela e me disse: “Não pare de trabalhar, as crianças crescem.” Que alívio! Que alegria! Por praticamente dois anos Elis ficou com a vovó. Nesse período eu trabalhei em mais de uma escola no período da manhã e da noite. Fácil não foi, porém, deu certo!
A segunda vez que vi uma filha com a cara fechada para mim, foi quando eu fui fazer um concurso em Governador Valadares. Elis já tinha quatro anos, mas a Olga, tinha um ano e um mês. Ainda amamentava em meus seios. Fiquei duas noites longe dela. Apesar de saber que ela estava em ótimas mãos – com o pai e os avós em Ouro Preto, viajei com o coração aflito. Pensava se ela iria dormir direito, pois ainda acordava de madrugada para mamar.
Eu ligava de tempos em tempos para meu esposo querendo saber como as meninas estavam. Ele sempre dizia que estava tudo bem, que eu poderia fazer a prova em paz. Assim eu fiz e retornei para Ouro Preto. Ao chegar lá, vejo mais uma vez um bebê, meu bebê, de cara fechada pra mim. Ela não chorava, mas parecia que não me queria por perto. Que sensação horrível! Nesse dia, Olga nem quis saber do peito. Segui os conselhos da minha sogra e nem insisti, pois ela já comia de tudo e eu já tinha vivenciado a difícil experiência do desmame com a Elis. Depois de um tempo, meu esposo me disse que ela teve febre, porém, não foi alta, medicou e ela ficou bem. Haja coração! Escondido, eu chorei demais!
Depois fui acalmando e agradeci, pela oportunidade de fazer o concurso, que era algo que eu queria muito, pelo apoio da minha família e pela saúde das minhas filhas. Quando saiu o resultado, lamentei – por duas questões, não corrigiram minha prova dissertativa. Paciência! Talvez não era pra ser. Eu sabia o quanto que havia estudado e sabia do quão foi difícil escolher ir fazer a prova.
A dor maior era lembrar do rostinho da minha filha. Contudo, tenho consciência de que em ambos os momentos, foi procurando melhorar as nossas vidas. Eu acredito que: quando os pais estão bem, os filhos tendem a ficarem bem. O contrário também é verdadeiro. E nesses momentos eu buscava trabalhar ou melhorar de emprego.
Obviamente, que depois disso tivemos que encontrar novas pessoas para ficar com as meninas, visto que mudamos de cidade. E já deixamos nossas filhas com minha sogra ou outro familiar ou amiga, por outros motivos: como passear com o marido, apresentar trabalho em Congresso, descansar…entre outros. E só vi sorrisos e olhos brilhando, inclusive os meus. Também tivemos que deixar por motivos tristes – como luto e saúde, só que estes não foram por nossa escolha.
Fiquemos em paz!
Um abraço,
Giséle, mãe da Elis Indira, 9 anos, Olga Niara, 6 anos e Núria Dandara, 2 anos.
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