Ouro Preto, 03 de outubro de 2021
Querida mamãe,
Eu tenho uma doença auto imune: Lúpus Eritematoso Sistêmico. Tive o diagnóstico em 2006 após ter tido uma trombose venosa. Desde o diagnóstico desta doença já tive derrame pleural, acometimento renal, nas articulações, problemas na circulação, de pele, já passei por várias sessões de pulsoterapia…. O corpo inchado por tantos corticóides. É que o tratamento é basicamente a base de corticóides e outros imunossupressores. Até onde sei, Lupus não tem cura, mas tem controle. Para quem não conhece esta doença, ela ataca basicamente o sistema imunológico. É como se desse uma pane no nosso sistema de defesa e ao invés dele nos defender contra os invasores, ele começa a atacar como se não compreendesse o nosso corpo como parte de nós.
E porque eu começo este relato falando isso? É porque todos os médicos que consultava não me davam esperança nenhuma para ser mãe. Diziam que eu não poderia ter filhos por vários motivos. Entre eles: o fato da medicação que sempre tomei para a doença poder interferir na fertilidade e pelo fato de, se caso engravidasse, teria uma gravidez de alto risco. Eu cheguei a consultar com um médico que sugeriu ligadura antes mesmo de tentar engravidar.
Mas alguma coisa dentro de mim dizia que eu deveria tentar, mesmo sabendo dos riscos…
O ano agora era 2013. Procurei minha ginecologista em Ouro Preto e falei do meu desejo. Ela com todo bom senso, explicou que no meu caso seria uma gravidez de risco e escreveu em um papelzinho o nome de um médico especialista em gravidez de risco, lá de Belo Horizonte.
Eu procurei também a minha reumatologista (quem acompanha pacientes lúpicas é o reumatologista) e também manifestei o meu desejo pela maternidade. Esta médica, que sempre me atendeu muito bem, também deixou claro todos os riscos e explicou que se caso eu conseguisse ficar em remissão da doença, por dois anos, poderia tentar engravidar.
Então fui em busca do que eu tanto desejava… De 2013 até 2015 fiz todo meu acompanhamento, direitinho como sempre fiz desde que descobri a doença. Tomei todas as medicações sugeridas, fui em todas as especialidades encaminhadas (é porque justamente por poder acometer vários órgaos, a gente tem que ir em várias especialidades). Além da reumatologista que sempre vou de dois em dois meses, passei pelo hematologista, cardiologista, oftalmologista e procurei o tal obstetra de alto risco sugerido.
Em janeiro de 2015 foi constatado através dos exames clínicos que a doença estava em remissão. Era meu momento então de tentar engravidar. Os médicos, meio que desacreditados que isso aconteceria logo ou mesmo que aconteceria, mas em fevereiro de 2015, com todos os exames “bons” do lúpus, começo com uma dor na perna. Procuro o atendimento hospitalar e eis que estou com outra trombose. Inacreditável, mas eu mesma sou a primeira a questionar o porquê daquela trombose se a pouco tempo os médicos já tinham dito que estava tudo ok com meus exames.
Desconfio da gravidez e eis que estou grávida. A trombose era por causa da gravidez. Tive que tomar uma injeção anticoagulante a gravidez toda… picadinhas na barriga. Descobri sim com a trombose, mas a vontade de ser mãe era tão maior que nem as duas picadas desta injeção anticoagulante na barriga me incomodavam.
No finalzinho da gestação, como já era de se esperar, o meu corpo começou a rejeitar a placenta. Era o momento do Manuel nascer… Ele nasceu de 37 semanas, lindo. Veio encher nossas vidas de mais amor e mais significados.
Essa primeira cartinha é para que conheçam um pouquinho de mim com o intuito de mostrar que alguns obstáculos que a vida pode nos apresentar, não nos impedem de sonhar, de lutar, de almejar alguma coisa e de conseguir realizar sonhos, desejos, vontades. Eu realizei meu sonho de ser mãe. Hoje sou mãe de 3. Isso mesmo, de três… Mas isso eu vou deixar para contar na próxima cartinha.
Joelma, 37 anos, mãe do Manuel, da Alice e da Lívia
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