Ouro Preto, 15 de outubro de 2021
Querida mamãe,
A morte… A primeira vez que senti o medo da minha morte foi na véspera do meu segundo parto. Antes desse dia, eu não me lembro de sentir esse medo, ou não senti-lo tão forte.
Teoricamente sabemos que essa é uma das grandes certezas da nossa vida, né? Mas optamos por não tocar nesse assunto, não conversar, não trazer a tona. Então eu vivia assim, imaginando que essa certeza não existia. Eu a ignorava e não pensava nela. Também era jovem e tinha a “tranquilidade” de ter uma vida inteira pela frente.
Até virar mãe. E sentir que a minha vida deu uma chacoalhada e misturou muita coisa, muitas certezas foram questionadas, assuntos escondidos foram aparecendo, sentimentos aflorando.
Então engravidei novamente. A Isabela estava com 1 ano e seis meses quando descobrimos. Meu marido nessa época morava em Belo Horizonte e vinha para casa nos fins de semana. Estávamos construindo a nossa casa e eu trabalhava no horário administrativo o dia inteiro.
E assim foi a gestação da Lulu. O enjoo, as crises de sono não tiveram espaço na minha agenda. Eu funcionava acelerada na maior parte dos dias, revezando a minha energia e atenção entre o meu trabalho na empresa, gestão da obra com a meta de terminá-la antes do parto, cuidado com a Bela e mantendo a relação com o meu marido a distância nos dias de semana. E com todos os hormônios se divertindo no meu corpo, intensificando vários momentos.
O tempo foi passando e tudo certo. Lembro que brincava com o pedreiro e usava o crescimento da minha barriga como instrumento de pressão para acompanhar o cronograma da obra. E como funcionou… Faltando uma semana para o nascimento da Maria Luisa, mudamos para a casa nova.
Também resolvi entrar de licença maternidade uns 10 dias antes do parto. Um aprendizado importante que trouxe da minha primeira experiência com a Isabela. A importância de desacelerar um pouco, antes do parto, para que a mudança de ritmo de vida não fosse mais elemento a ser adicionado nesse processo de adaptação ao novo ser na vida da família.
E assim, eu fiz. E então chegou o dia do nascimento da Maria Luiza. Recebi a orientação médica de fazer a cesária e marcamos a data. Uma segunda-feira, dia 02 de agosto de 2010 as 17:00hs.
Ao amanhecer do dia, o coração já se apertou. Resolvi então passar a manhã com a Isabela que tinha na época 2 anos e 3 meses. Ficamos brincando de areia sentadas no monte da construção do vizinho a manhã inteira. Almoçamos e ela foi para a escola.
Neste momento, eu sabia que só a veria após o parto da Lulu. E foi aí, que aquele aperto no coração veio arrebentando tudo, me fazendo sentir pequenininha. Então, pude compreender que se tratava, entre outras coisas, do meu medo de morrer.
Medo de morrer e não ver mais aquele rostinho gostoso, que me deu um tchau sorridente para ir para a escola. Medo de não ver aquele rostinho se transformar em um rosto juvenil. Muito medo de não poder estar por perto quando ela precisar de mim. Medo de não estar junto com ela celebrando conquistas. Foi a minha primeira experiência encarando o meu medo de morrer.
Com um frio na barriga, ainda hoje, me despeço…
Nívea Cristina, 44 anos, mãe da Isabela de 13 e Maria Luisa de 11.
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